domingo, 27 de setembro de 2009

Ensaio

A lenda do absurdo

Encerram-se em seu interior os desejos profanos do ser. Era normal não dormir duas horas sequer, e para fugir do alcance dos fantasmas que o imolam e o tatuam na incorrigível cena oca de sua alucinação, encontra esconderijo na noite ofídica, como se sua fosse o ato de possuir.

E se a vida lhe foi cruel? Há motivos para odiar o que a vida lhe dá? Se o que é trágico e conseqüentemente vulgar, nunca fere os olhos de gerações que se pavoneiam no sigilo articulado de sentirem-se imaculados em seus ap´s.

- Eis o homem, vítima do destino e do azar, de conduzir ações em suas formas mínimas, anormais. A distância da vida cotidiana deu-lhe a liberdade... Mas liberdade que se disfarça em trajes sombrios, toalha fina, ilusão. Hoje ninguém a isso cabe julgar, pois a vida é um sonho, um sonho longo, que mostra imagens algumas vezes ocultas nas silenciosas crises dos incrédulos mortais. E se este homem - o precursor do despertar dos sonhos – é visto com receio! O que esperar de uma humanidade tosca que se esconde atrás de mechas de cabelos mal penteados, lentes coloridas e episódios que o tempo e atitudes hão de apagar.

O homem cresce, cresce o ódio – único sentimento perdido do saguão vazio do espírito – condenado ao não viver! Iria ele para algum lugar? Ou, eternamente a incomodar-se com a menor nuvem no céu. E tudo o levava as vigílias forçadas das noites, uma marcha lenta dentro das horas desertas de poesias, onde o silêncio acentuava a solidão.

Refletia em seu rosto o sombreado da madrugada, as cortinas azuis, rasgadas, tremulavam atormentadas pelo vento frio, No seu covil gelado, ele, um lobo recato de olhar inquieto. Esperando o que possa acontecer. Na rua rumores de acontecimentos infelizes que nele metiam medo, e no quarto todas as criaturas criadas pela sua imaginação, fantasmas pálidos a vagar displicentes, em solenes gracejos ou sorrisos de dor.

Todo pesadelo era real, ganhavam corpo e interpretação daqueles entes fugidos da mansão de derradeiro descanso, a fim de atormentá-lo. E não estava disposto a sair. Mas, não podia suportar aquela inconcebível situação habitual.

Ardia em si a luta horrível da alma contra o corpo, sem condições de se ter razões, sem necessidade de respeitar leis e os velhos princípios morais. No seguro do perfume da memória branca, após o desmantelo de tudo o que é real: vê-se a ouvir os seus passos na rua, na névoa fria, sob chuvas e outras composições. Já não era capaz de fugir! A certeza do delírio. Noctâmbulo em seu determinismo obscuro. Caminhando agora indiferente a tudo.

Um olhar feminino, resoluto, o acompanha. Observa-o parar entre os semáforos em pane: hipnotizado pelo balé de luzes, calafrio vibrante, mas sorrindo, chorando... De juízo infantil.

E viu-a aproximar-se, certa de si, nítida entre as águas. Um anjo azul a lhe sorrir. E perguntar quase num grito, o porquê de ali estar? No devaneio sem lua. – Saudação aos deuses do improviso? – Espetáculo de exercícios corporais? Estagnar-se a chuva, contemplar os reflexos dos relâmpagos súbitos.

Talvez não lembre, mas ele falou. Não raras palavras! Quase uma prece... Provinda do delírio de dentre de ti. A prece, um mistério, cuja fúria e poesia vieram ligar-se a imagem de seu corpo. Tão somente corpo revelando-se sob as vestes molhadas. Ela confessou-se tão pequena e quis tocá-lo, mas partiu dele. E ao sentir a mão quente no rosto rijo, produzindo instantes de infinito prazer, fora envolta em sono... O mesmo sono que o dominava. Momento supremo de abstração. Mundos inteiros ao seu redor saudavam-nos. Louvavam o breve instante do nirvana imaterial.

E viam-se assim, naquele ato de significação não certa, nova maneira talvez de amar. Anônima. Especial. E talvez o vento ou um recurso empírico, sem eco ou satisfação. Ou, os deuses do absurdo, de substâncias únicas, capazes de fazê-los desmaterializar-se, e num segundo sumir dali. E após um mergulho breve na agudez do desconhecido, no secreto lúmen do possível... Surgir a salvo, ao longe de toda intuição, na eqüidistância do silêncio e das vozes roucas dos serafins. Livres de toda reza, de todo vício. De tão calados ouve-se o som dos pensamentos, mas nenhum deles pensa.

Só se ouve uma música, que vai chegando cada vez mais distinta, trazendo junto o aroma dos delírios furtivos, feita de notas e gemidos.

Quem seria capaz de despertá-los? Que força anormal poderia fazer alguém sair de um sonho, sustê-lo ao tempo.

Ninguém é capaz de ouvir a música dos sonhos que só é ouvida por quem sonha. E despertar é morrer!

Eles não despertarão.