domingo, 20 de setembro de 2009

Ensaio

As palavras



Quantas pessoas já vomitaram palavras imundas em cima de mim...
Talvez elas pensem que meus ouvidos são vasos sanitários.
Pensam que tenho onde dar descarga a todas essas palavras.
E jogam esses excrementos tentando atingir o meu cérebro...
Pior que atingi.
Mas as reações não são a tão esperada.
Evito qualquer palavra momentânea.
Ainda que as entendo. Porque não sou diferente delas.

As palavras quando presas me faz mal,
Dói o corpo e enjaula a alma,
Para o corpo e para a alma fixa na cabeça-mente.
Quanto mais penso nos montueiros de palavras
Que deveria ter dito e não disse, mais dói à cabeça.
Então, as palavras desce ao coração.
E dói o peito, uma dor aguda e constante,
Completamente sufocante,

Torno-me uma escrava.
Por obedecer ordens inconscientemente.
Ando, me comunico, vejo e sinto.
Mas, como um boneco de pano.
Uma Emília antes da pílula.
Porque os meus sentimentos e minha alma
Estão nas palavras que não foram ditas
E que agora me aprisionam.

As palavras descem até as pernas, as costas, o estômago.
Tudo dói.
O alimento que como me faz mal.
Os vírus, bactérias, e outros corpos estranhos se alojam em mim.
As palavras servem de ponte para esses reinos.
E tudo por não ter dito o que acreditava ser verdade.
O que acreditava ser o correto a ser dito naquela hora.
E tinha que ser naquela hora.

Então as palavras mesmo agindo em meu corpo
Agem primeiro na alma.
Tira minha concentração e minha paz de espírito.
Os meus olhos não mais seguem em direção
Da fonte causadora por todos esses estragos.
Passam a evitar outros olhos.
Minha boca trava e minha mente reflete
Por frações de segundos todas as palavras vomitadas em mim...

De tanto sintomas e dores chega o momento inevitável.
Vomito todas as palavras digeridas...
De volta a mesma fonte de origem.
Só assim volto a dormir, respirar tranquila, a não sentir dor
E a olhar as pessoas nos olhos.


Andréia Fontini