MAIS QUE BELEZA!
“Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve." (Lc 22,27)
(*) Nadir Alves
Quem participou da missa do último dia 20, na Paróquia Jesus Bom Pastor, foi tomado de surpresa no momento da bênção final. O padre Nelson Molina, pároco desde fevereiro 2002, aquele que trouxe consigo o bem pessoal bordão “mais que beleza” e amado de forma especial pelas crianças, causou comoção e as palavras finais do rito “vão em paz e que o Senhor vos acompanhe...”, simplesmente não saíram. Minutos antes, ele havia sido homenageado de forma singela com flores, pelos seus quinze anos de sacerdócio, comemorado no dia 19 de junho. Sua voz foi tolhida pelas lágrimas e emoção. Alguém muito próximo dele, apenas exclamou “daqui pra frente as missas ficarão cada vez mais tristes. Vamos sentir muito. Ele é um baita cara. Ele já entregou hoje o trabalho na penitenciária”.
A herança daqueles que seguirem Jesus, anunciando o Reino do Pai é que não lhe faltarão uma família numerosa. A tristeza do sacerdote Molina, debutando nas bodas de cristal de ordenação presbiteral, é a demonstração do amor, carinho e condução que o mesmo dedicou ao “seu” povo, dado por Deus como sua família, nos últimos sete anos, aqui em nossa cidade. Se diferente fosse padre Nelson, haveria de ter algo errado. Naquele momento, a voz embargada pelas lágrimas mostrou o quanto humano é. O quanto é mister e importante amar o próximo. Jesus também chorou. O mestre também tinha amigos mais que verdadeiros e se lamentou ao ter que deixá-los. E, eles, na mesma intensidade sentiram a falta do Bom Pastor. É assim, que seu rebanho está hoje, órfão!
Órfão do condutor popular, que sempre se fez presente nas celebrações festivas, nas missas sertanejas, nas comunidades, nos bailes da família, nas ruas, nos bate-papos com os amigos, naquele futebolzinho que sempre gostou, abençoando cavalgadas... E, como um longa-metragem, as imagens que ora revemos nos trazem a nítida impressão de que não soubemos aproveitar. Não tiramos proveito e não soubemos desfrutar mais de sua companhia, de seus ensinamentos, de suas virtudes, de seu carinho, do seu mais que beleza, do seu sonho de ver uma cidade melhor...
É uma sensação de impotência e de vazio, pois agora vemos de forma mais clara, no quase momento do até breve, do profeta precioso que tivemos. Talvez seja a ocasião de elencarmos algumas ações que fizeram a diferença, num município carente de almas que lutam pelo bem comum – embora o senhor siga a risca aquela recomendação do Evangelho, de não demonstrar aos quatro ventos as nossas boas ações.
Por isso, é possível e muito provável, que nossa comunidade católica não saiba de seu precioso projeto dentro da Penitenciária Estadual de Maringá. Às vezes, a opção pelos mais fracos não dá ibope, não aparece na mídia e nem mesmo entre os nossos. O amor despido de acepção ainda é visto com reserva.
É provável também que muitos não saibam daquele padre que há uns anos atrás, na inauguração de casas populares, teria “peitado” alguns políticos maringaenses, das esferas municipais, estaduais e federais dizendo que era uma vergonha habitações com aquela metragem. O senhor havia sido chamado para dar a “bênção”, lembra disso?.
É possível que muitos não saibam também que o senhor sonhava (ou sonha?) a existência de um grupo de pessoas de Paiçandu, sem placa de igreja ou de partidos, lutando pelo município, engajando forças, não apenas para a concretização de uma cidade aparentemente bonita, mas bonita que não deva nada ao seu povo. Aliás, é possível, muitos de nós saibamos apenas que os padres ficam nas paróquias, por um determinado tempo, a até podem expressar um “nossa que pena que ele se vai”.
Nem vamos nos ater aos seus trabalhos na Jesus Bom Pastor, pois os mesmos ultrapassam os muros limitados pelo decreto diocesano de onde começa e onde termina a paróquia. Os fiéis sabem. As sementes estão frutificando e novos frutos surgirão, ao longo de muito tempo ainda.
E, apenas retomando nossa fala inicial, as mudanças promovidas pela Arquidiocese de Maringá, anunciadas no início da segunda quinzena de junho, deixaram perplexos outros fiéis, em outras paróquias. Muitas vozes confiscadas pelas lágrimas e emoções ai afora. Como participantes dessa Igreja, entendemos que os profetas não podem fincar raízes e permanecer em apenas um lugar. Sim, sabemos que uns aram, outros plantam e outros colhem. Contudo, somos humanos e por nossa vontade era que as mudanças pudessem ocorrer longe das paróquias de Paiçandu e, mesmo, encerrando um pouco de egoísmo, queríamos nos preservar dessa tristeza, dessa dor que ora sentimos.
Daqui a pouco estará em uma outra cidade, com uma outra realidade, e com outros fiéis. Com toda certeza, conservará e dará o que tem de melhor a eles, pois é desta armadura que o bom Deus reveste os seus. Sentiremos ciúmes, aquilo que o próprio Paulo declarou sentir ao falar de Jesus. Um ciúme amoroso, se é que nos é permitido dizer. Ainda assim, padre Molina, padre Nelson, mais que beleza tê-lo conosco, nessa caminhada! Mais que beleza são os amigos que por aqui fez, os que aqui ajudou, os que aqui fez crescer. E, mais que beleza, o que o Pai tem reservado aos seus servos.
Obrigada padre Nelson!!!! Obrigada por ter nos mostrado concretamente que estamos aqui, apenas e tão somente, para servir, conforme seu lema de ordenação. Que o bom Deus lhe recompense e lhe cubra com suas bênçãos! Afinal, mais quanta beleza deve haver “nos pés daqueles que anunciam as boas novas da salvação”!
(*) Nadir Alves é jornalista, professora e editora do jornal Comunidade Católica de Paiçandu.